2.
Estava tão cansada de bater perna o dia
todo, que acabei cochilando no banco da praça. Acordo no susto, quando ouço
risadas altas e percebo que eram duas moças caminhando no parque, conversando e
rindo.
Olho para o relógio em meu pulso que já
marcava 19:30 horas e então foi só aí que percebi que já havia escurecido o
tempo e a temperatura havia diminuído. Olho para o meu celular que marcava 25
graus. Senti meu estômago roncar de fome, mas eu não tinha mais dinheiro para
comprar comida. Então me lembrei da boate e caminhei até o portão do parque, de
lá do outro lado da rua vi a placa de néon acesa, uma música ecoava em meus
ouvidos, porém não entendi a letra que era cantada em inglês, uma mistura de
música indiana e pop. Respirei fundo e tomei coragem para ir até lá. Atravessei
a rua e olhei para a escadaria que tinha que subir. Dei um passo para trás
pensando em voltar, olhei novamente para a placa de néon, e disse para mim
mesma: “Vai logo mulher, você não tem mais
dinheiro, precisa tentar arrumar emprego em qualquer lugar, não pode nem pensar
em escolher, e não tem ninguém para te ajudar”.
Respirei fundo mais uma vez, comecei a
subir as escadas contando todos os degraus, bem devagar, ao todo eram 10.
Quando cheguei ao final, uma porta de ferro com uma janela e mais escadas, só
que agora descendo.
Quando coloquei a mão na maçaneta da
porta para entrar um homem alto e muito forte que não sei da onde surgirá,
colocou a mão em meu braço apertando ele e me puxando para longe da porta.
_ Desculpa senhorita, mas tem que pagar
para entrar e só são permitidos homens, a não ser que você seja funcionária da
boate, mas tem que mostrar a credencial. _ Disse o segurança com a voz firme.
_ Desculpa o senhor não está entendendo.
Estou procurando emprego e queria saber se podia deixar um currículo?
_ Espere um pouco aqui, vou falar com a
Madame Nina.
Aguardei parada lá em frente ao portão
de ferro. Vi aquele homem entrando e descendo as escadas. Percebi que a música
que vinha da boate mudou, agora tocando funk. E como eu odiava música funk!
Fechei meus olhos apertando bem as pálpebras, sentia um cansaço enorme, tanto
físico, quanto mental e emocional. Esfreguei a dorso da mão em meus olhos, e
não pude evitar um bocejo de sono.
Olhei para o meu relógio no pulso, já
marcava 19:55 da noite. Quando ouvi o barulho da maçaneta do portão e aquele
segurança surgir.
_ Senhorita pode falar com a Madame
Nina, vou te levar até os aposentos dela, siga-me por favor!
Olhei para o segurança e assenti com a
cabeça que o seguiria. O segurança foi na frente e eu atrás. Desci as escadas
bem devagar, com medo de ter me metido no lugar errado, quando cheguei ao
último degrau olhei tudo em volta.
Do meu lado direito várias mesas com
cadeiras de madeira de cor escura como ébano. Homens sentados bebendo bebidas
coloridas que nunca tinha visto na minha vida. Logo mais a frente um palco onde
moças seminuas dançavam em um cano, que depois mais tarde descobri que a dança
na verdade se chama “pole dance”. Os homens olhavam para as moças dançando, e
eles assobiavam as chamando por adjetivos nada convencionais e educados. Do
lado esquerdo um bar grande com bancos também de madeira escura, e um bartender
atendendo alguns homens que pediam bebidas e cervejas. Na minha frente um
corredor grande que caminhei vagarosamente atrás do segurança, chegando próximo
do palco uma porta de madeira com uma placa que dizia: “Entrada autorizada somente para funcionários”.
Quando passei pela porta, mais escadas subindo. Murmurei para mim mesma:
_ Não aguento mais escadas! _ Dei uma
longa respirada tomando mais fôlego.
_ Calma senhorita! São as últimas
escadas, prometo. _ Assenti com cabeça, enquanto dava um sorriso sem graça. Não
achei que ele tivesse escutado meu murmúrio.
Subi as escadas atrás do segurança.
Quando cheguei ao último degrau, um corredor, nele um tapete vermelho estendido
em todo seu comprimento. Várias portas enumeradas e nomes de mulheres escritos
abaixo do número. Olhei para o rosto do segurança sem entender nada. Comecei a
ficar apreensiva com aquele lugar.
_ Então senhorita, a Madame Nina está te
esperando. Quarto número 4. Não precisa bater na porta, pode entrar direto, vou
voltar ao meu posto.
_ Espere... _ Nem terminei a frase, olhei
o segurança descendo as escadas e sumindo de minha vista.
Olhei novamente, para o corredor.
Comecei a andar pelo tapete vermelho. Notei luminárias na parede, no estilo
americano. Portas de madeira de mesmo material que as da mesa do saguão
principal, conforme ia andando pelo corredor, notava que a numeração das portas
ia diminuindo. Olhava os nomes nas portas e achava um mais estranho que o
outro. Porta 10 (Jade), porta 8 (Jasmim), porta 6 (Ágata), porta 5 (Louise).
Quando cheguei à porta 4 (Madame Nina), fiquei apreensiva para entrar, pensei
em sair correndo e ir embora, pensava comigo mesma: “ Onde eu fui me meter?”
Mas no fundo eu sabia que tinha que
continuar, não podia desistir, lembrei que o segurança falou para eu entrar sem
bater, assim que coloquei a mão na porta com essa intenção. Hesitei então em
bater, coloquei a mão na maçaneta e percebi que a porta estava destrancada,
abri a porta delicadamente, fui entrando e vi uma mulher sentada no banco de
sua penteadeira de costas para a porta. Ela não percebeu a minha presença,
então quando bati a porta fechando-a ela se virou ainda sentada no banco
giratório. Olhou para mim sorrindo. Uma mulher loira de cabelo curto, com uma
maquiagem em tanto chamativa, aparentando em torno de 50 anos, olhou fixo em
meus olhos enquanto eu retribuía o sorriso um tanto tímida. Quando pensei em abri
a boca para falar, ela interrompeu o meu pensamento.
_ Qual seu nome minha jovem?
_ Me chamo Cynthia. Eu queria saber se
posso deixar um currículo aqui com você? _ Nem esperei a resposta dela, tirei
um currículo da pasta e entreguei em suas mãos, me aproximando dela.
_ Então me deixe ver. Seu nome é Cynthia
Vasconcellos, você tem 18 anos e mora no Anhangabaú, não muito longe do centro,
isso é bom.
Ela analisava meu currículo enquanto eu
ficava em pé, parada, sem saber o que fazer, apenas olhando e pensando por que
essa mulher usava tanta maquiagem no rosto.
_ Eu trabalhei por um tempo como
arrumadeira em um hotel. Por enquanto é a única experiência profissional que
tenho.
Naquele momento ela parou de analisar o
meu currículo e colocou em cima de sua penteadeira, enquanto eu tirava uma
mecha do meu cabelo do rosto que havia se desprendido do meu rabo de cavalo.
_ Meu nome é Nina. Sou dona dessa boate
a mais ou menos 10 anos. E nesse momento o único emprego que posso te oferecer,
é de dançarina e striper, ou garota de programa.
Naquele momento senti tontura. Quando
ela disse “garota de programa”, meu coração disparou em meu peito, jamais
pensei em fazer tal coisa, ir pra cama com homens por dinheiro. Mas minha
tontura persistiu, senti meus olhos obscurecer, minha pasta caiu no chão, vi
aquela mulher sair correndo de sua cadeira.
Acordei deitada numa cama de casal, meio
tonta ainda, passei a mão no rosto, vi aquela mulher sentada em sua cadeira
olhando para mim, com a voz falha perguntei a ela:
_ Onde estou? O que aconteceu?
_ Cynthia você está em meu quarto em
minha boate. Você veio procurar emprego. Você desmaiou e eu coloquei-a em minha
cama.
Naquele momento me levantei, sentando na
cama, minha mente clareou então me lembrei de tudo.
_ Quanto tempo faz que você não come?
_ Eu comi era por volta do meio-dia e
depois não comi mais nada. _ Esfreguei meu rosto e meu estômago roncará alto
naquele momento.
_ Por isso você desmaiou. São 9 horas da
noite e você está há muitas horas sem comer nada.
Quando ela me disse isso meu coração
bateu acelerado, levei à mão a cabeça e olhei meu relógio no pulso.
_ Nossa já é muito tarde, preciso ir
embora. _ Mas quando tentei levantar-me da cama, senti tontura de novo, levei a
mão a minha testa, fechei meus olhos apertando-nos e sentei novamente na cama.
_ Não consigo levantar!
_ Você está fraca Cynthia, não pode ir
agora. Pedi a uma de minhas dançarinas para trazer comida a você.
Não hesitei em negar a ajuda dela,
realmente estava fraca e meu estômago roncará alto novamente. Quando olho para
a porta se abrindo uma dançarina usando biquíni entra com uma bandeja na mão.
Olho para ela dos pés a cabeça, como se estivesse vendo um fantasma em minha
frente.
Ela coloca a bandeja em meu colo.
Agradeço a ela, e ela vai embora. Na bandeja vejo arroz, feijão, um bife a
milanesa e batatas fritas. Do lado uma salada de beterraba com cenoura, um suco
que quando provei parecia ser de laranja, e de sobremesa uma porção de salada
de frutas. Comi tudo, como se fizesse dias que não comesse. Estava realmente
com muita fome, pois comi até a beterraba que eu nunca gostara.
_ Madame Nina... _ Ela me interrompe
enquanto espeto com o garfo uma fruta.
_ Me chame apenas de Nina. _ Ela sorri
para mim.
_ Nina, eu não tenho dinheiro para te
pagar a comida. _ Olho para ela, enquanto ela me admirava comer as frutas com
tanto gosto.
_ Não precisa me pagar Cynthia, e nem me
deve nada. Seria uma pessoa muito ruim se deixasse você ir embora no estado em
que está.
_ De qualquer forma eu te agradeço
muito. Obrigada Mada... _ corrijo _ Nina.
_ Então Cynthia, você precisa de
dinheiro? _ Olho fixo para ela, estranhando a pergunta.
_ Bem eu pago aluguel, tenho contas em
atraso, preciso sim de dinheiro, mas está muito difícil de conseguir emprego. _
Termino de comer as frutas e ajeito a bandeja do lado na cama.
_ Então Cynthia, o único emprego que
posso te oferecer aqui é de dançarina striper, fazer “programas”, fica por sua
conta.
Fiquei olhando para ela, ainda sentada
na cama, por uns segundos. Abaixei meu olhar e levantei-me da cama. Já me
sentia melhor e a tontura havia passado. Calcei minha sapatilha, que
provavelmente Nina tinha tirado quando me deitou na cama. Vi minha pasta e
minha bouça no criado-mudo do lado da cama peguei-a e abracei-a apoiando em meu
peito e coloquei a bouça do meu ombro. Voltei meu olhar para aquela mulher e
disse com a voz trêmula:
_ Quanto eu ganharia se dançasse?
_ Depende de quanto de roupa você
tirasse se fizer striper. Se você só dançar, com certeza pega menos. Vai
depender do quanto você agrada os homens. _ Ela me olha dos pés a cabeça me
analisando. _ Você é bonita, é loira, tem um corpo que os homens chamam de
“gostosa”. _ Ela riu um pouco quando disse isso, e eu também não contive um
riso que saiu sem eu me esforçar. _ Você está um pouco gordinha, mas tenho
clientes que gostam de gordinhas. _ Levantei minha sobrancelha, olhando para
meu corpo. _ Você precisa ser carismática Cynthia, chamar a atenção dos homens
para você. Você tem um bom corpo, um cabelo bonito, olhos azuis que com certeza
chama a atenção de qualquer homem. _ Essa parte eu concordei com ela, o que eu
mais gostava em mim, era meus olhos azuis escuros. _ Então me diz Cynthia, o
que você quer?
Respirei fundo quando Nina me perguntou.
Olhei tudo ao redor do quarto, o guarda-roupa grande que ocupava uma parede
inteira, a cama de casal onde eu estivera a pouco ainda com a bandeja de comida
em cima, dois criados mudos com abajur redondo e colorido estilo americano.
Duas sapateiras de mesma cor, grandes e abertos repletos de sapatos de todos os
tipos do lado de uma porta que parecia ser banheiro. Olhei novamente a
penteadeira onde se encontrava diversas maquiagens e o meu currículo pobre em
cima. Olhei fixo para Nina, respirei novamente antes de dar uma resposta que eu
jamais imaginei que pudesse dar.
_ E como eu faço para apenas dançar?
Quanto tenho que pagar a você? _ Nina sorri para mim e se levanta de sua
cadeira e só então percebi que o sapato que ela usava deveria ter um salto de
no mínimo uns 15 centímetros.
_ Tudo que as minhas garotas ganham com
danças e striper, 80% fica para mim e 20% para elas. Programas é a parte, então
o que elas ganham com programas, fica tudo para elas. Mas ninguém é obrigada a
fazer programa, isso fica por escolha de cada uma. Mas para te ajudar Cynthia
por hoje, deixo a você tudo que ganhar com a dança. _ Ela se aproxima de mim e
passa a mão em meus cabelos loiros, ondulados e comprimidos. _ O que me diz
Cynthia?
_ Eu aceito apenas dançar por hoje, não
vou fazer striper, e só porque preciso muito do dinheiro. Mas o problema é que
eu não sei dançar. _ Olhei para Nina, levantei a sobrancelha e fiz cara de
coitada.
_ Isso não é problema Cynthia. Vou pedir
a Lili, para te ensinar alguns truques, ela é minha melhor dançarina. Siga-me
até o quarto dela.
Saímos do quarto de Nina, e eu estou
novamente naquele corredor cheio de quartos, caminhamos pouco, até chegarmos a
uma porta de número 7, onde logo abaixo do número estava escrito o nome Lili.
Nina ficou na minha frente e entrou
nesse quarto sem bater, Ela entrou e eu logo atrás dela fechei a porta, avistei
uma moça de cabelo chanel ruivo e liso, magra, um pouco mais alta do que eu,
porém também notei que usava um sapato de salto de uns 15 centímetros, tinha
olhos verdes e estava usando uma fantasia de mulher-maravilha. Pensei comigo
mesma: “A mulher-maravilha não é morena?”
_ Lili, quero te apresentar Cynthia. Ela
vai dançar por uma noite aqui e quero que você ensine um pouco de dança para
ela. _ Diz Nina
A moça se aproxima de mim sorrindo e
aperta minha mão cumprimentando-me
_ Muito prazer Cynthia. _ Diz Lili.
_ O prazer é meu Lili. _ Aperto de volta
sua mão e retribui-o sorriso.
_ Bom Lili ensine a ela alguns passos de
dança, algo que ela possa fazer em apenas uma música. _ Diz Nina, enquanto Lili
assenti com a cabeça. _ Lili é uma de minhas meninas, é a mais experiente e tem
mais tempo de casa, ela é exclusiva de um dos meus clientes. _ Continuo Nina a
falar, agora um pouco mais séria e olhando para mim. _ Lili, arrume uma
fantasia para ela também, empreste uma das suas a Cynthia. _ Lili sempre
sorrindo balança a cabeça a Nina assentindo.
_ Como assim exclusiva? _ Levanto a
sobrancelha fazendo cara de duvida.
_ Ás vezes algum cliente se “apaixona”
por uma menina ou por sua dança. Aí pede que ela seja exclusiva somente para
ele. Claro que isso requer uma quantia bem mais alta e paga mensalmente para
mim e uma parte para a dançarina também. Ela até pode continuar dançando, mas
striper e programas e somente para o “exclusivo”. E Cynthia, vale muito à pena
conquistar um homem rico e ser exclusiva. Mas aí, além de dança tem que fazer
striper e programas também com o cliente que pede “exclusividade”. É algo que
eu inventei e só existe nessa boate, por isso tenho muitos clientes e bons
clientes. _ Nina explicava ora olhando para mim, ora olhando para Lili.
_ Não sabia que existia isso. _ Balanço
a cabeça negando.
_ Mas existe Cynthia. Aqui na minha
boate existe. Vou deixar vocês duas sozinhas. _ Diz Nina.
Vejo Nina saindo pela porta, quando ela
se fecha, Lili vai até a porta e tranca-a com a chave.
_ Bom Cynthia vou te ensinar alguns
passos, temos apenas 2 horas até meu cliente chegar. Primeiro tenho que arrumar
uma fantasia a você. _ Vejo Lili caminhando até seu guarda-roupa cor-de-rosa e
abrindo uma porta de correr, há vejo mexendo em muitas fantasias e pegando uma.
_ Acho que essa fantasia de mulher-gato serve para você, enquanto você se troca
vou ao banheiro.
Vejo Lili entrando numa porta ainda
dentro de seu quarto. Olho tudo ao redor e percebo que a mobília é exatamente
igual ao do quarto de Nina, exceto pelas cores cor-de-rosa em tudo que vejo,
até mesmo na roupa de cama estendida numa cama de casal redonda e grande. Pego
a fantasia de mulher-gato que Lili havia deixado na cadeira em frente a sua
penteadeira. Olho para o espelho o meu reflexo, olhos inchados, cabelo todo
desgrenhado, semblante cansado e sem motivos para desistir da loucura que iria
cometer.
Pego a fantasia em minhas mãos e começo
a analisar. Falo para mim mesma: “É igualzinha ao do filme que vi”.
Começo a tirar minha roupa e colocar a
fantasia, exceto pela máscara que não conseguia amarrar. Apanhando da máscara,
vejo Lili saindo do banheiro:
_ Lili pode me ajudar com essa máscara?
_ Olho para ela enquanto seguro a máscara em minhas mãos.
_ Claro Cynthia! _ Lili ri, quando percebeu
que eu havia apanhado da máscara.
Ela me ajuda a prender a máscara em meu
rosto e me puxa pelo braço ao lado de um cano que ficava em frente a sua cama.
Ela começa a me ensinar alguns passos de “pole dance”, mais eu mais caía do que
conseguia ficar no cano. Mais eu sempre fui uma pessoa persistente, e essa era
uma de minhas melhores qualidades, não desistia fácil de meus objetivos.
Enquanto ela me mostrava como eu devia deslizar no cano, eu gravava com os meus
olhos a performance de Lili, e levava direto a minha memória. Aos poucos eu
tentava fazer igual a ela, era difícil, muito mais do que eu imaginava, mais eu
comecei a melhorar a minha deslizada pelo cano e a cair menos no chão. Fora
isso, Lili também me ensinava a dançar fora do cano e a ser sensual, como ela
mesma me dizia: “É assim que os homens gostam”.
Mostrar olhar sensual, dançar no ritmo da música, e eu tive que me esforçar
para aprender. Uma motivação? Contas a pagar e dinheiro que eu precisava
conseguir de qualquer forma.
Olhei para o relógio em meu pulso que
marcava 23:00 horas, cansada e ofegante, sentei-me na cama.
_ Lili, preciso descansar! _Tentava
puxar ar para dentro dos pulmões.
_ Meu cliente já deve estar chegando
Cynthia. E você precisa treinar muito mais para outras vezes que dançar.
_ Não vai ter outra vez Lili. Só aceitei
dançar hoje porque preciso muito de dinheiro. _ Levantei-me da cama e peguei um
copo de água da jarra que estava em cima da penteadeira.
_ Eu pensava igual a você quando cheguei
aqui Cynthia. _ Falava enquanto também se servia de um copo de água da jarra. _
Mas o dinheiro fácil começou a vir quando fiz o primeiro striper. Depois o
primeiro programa aí não parei mais e fiquei por aqui. A própria Madame Nina me
ensinou a dançar. Quando consegui ser exclusiva, comecei a ganhar bem e a fazer
minha poupança. Porque essa vida dura no máximo até os 40 anos.
Olhei fixo para Lili, enquanto tomava
mais água. Meu pensamento foi interrompido pelo toque na porta.
_ Cynthia vá até o quarto de Nina que
ela vai te mostrar o caminho para o palco. Acho que você já sabe o suficiente
para uma música. _ Lili me fala enquanto atende outra dançarina na porta dando
o recado a ela.
Caminho em direção à porta ao mesmo
tempo em que Lili abre-a pela segunda vez. Já próxima da porta, vejo um senhor
de cabelos brancos, com terno e gravata, aparentando na casa dos 60 anos, Ele
beija Lili na boca e eu saio para o corredor sem cumprimentar o cliente de
Lili, que me olha dos pés a cabeça, antes de Lili fechar a porta de seu quarto.
Caminho para o quarto de Nina, mas
quando chego próximo da porta, Nina sai no corredor ao meu encontro.
_ Lili te ensinou a usar esse chicote? _
Nina me pergunta apontando com os olhos para o chicote que eu segurava em minha
mão direita.
_ Claro que sim Nina. _ Respiro fundo
enquanto coloco minha mão esquerda em minha cintura fazendo pose e estalando o
chicote no chão.
_ Que bom! _ Nina não consegue conter
uma risada com a minha performance. _ Siga-me Cynthia vou te levar até a
entrada das dançarinas para o palco.
Sigo a Madame Nina pelo corredor,
descendo as escadas. Antes de chegar à porta que dá para o salão e bar, vejo
uma porta a esquerda, que antes não havia notado. Entramos por essa porta, onde
vejo um corredor com poucas luzes e uma cortina grande que cobria o palco do
corredor.
_Você espera ser anunciada no último
degrau. _ Nina aponta as escadas de 4 degraus para mim. _ Aqui escondemos a
verdadeira identidade das meninas por segurança, então vou avisar ao locutor
para te anunciar como mulher-gato. _ Olho para ela com o olhar reprovando o
nome. _ Eu sei que não é muito bom e criativo Cynthia! Mais foi o melhor que
consegui pensar, levando em conta o pouco tempo que tive para pensar. Vou falar
com o locutor, quando ele anunciar, você entra.
_ Tudo bem Nina! _ Respirei fundo
enquanto subia as escadas e Nina saía para falar com o locutor.
Parei no último degrau. Tentava pensar
positivo e falava para mim mesma: “Você vai conseguir Cynthia! Você vai
conseguir! Só lembrar-se das instruções de Lili, e principalmente lembrar-se
das contas atrasadas”.
Respirei fundo. Fechei meus olhos
apertando com força, mexi meu corpo para espantar a tensão. Quando ouvi o
locutor falando: “Uma salva de palmas para Jade, a
mulher-canhão”! Abri meus olhos e olhei para as escadas de saída do
palco do outro lado, uma linda moça mulata saindo e indo embora. Escutei
novamente o locutor fazendo uma anunciação: “Senhores,
agora iremos apresentar uma bela dama com uma bela dança, uma salva de palmas
para nossa nova dançarina, a mulher-gato”!
Ouço o DJ introduzindo o som de um rugido
de leão, e uma música que não conhecia mais estava gostando do som, logo em
seguida. Consegui entrar no palco e parei em frente aqueles homens me olhando e
me comendo com o olhar. Parei estagnada e não conseguia me mexer. Olhei para o
cano de pole dance, olhei em seguida para trás pensando em voltar, mas vi Nina
mexendo a boca balbuciando palavras que não conseguia nem ouvir, nem entender.
Alguns homens começam a assobiar tentando incentivar-me, enquanto outros apenas
olhavam esperando eu me mexer e sorvendo suas bebidas. Lembrei-me da frase da
Lili: “Você não precisa mostrar seu verdadeiro
eu, precisa apenas mostrar o que aqueles homens não encontram em suas esposas,
e esperam encontrar em você”.
Olhei para o chão, apertei meus olhos e
respirei fundo. O DJ parou a música e um silêncio enorme pairou naquele lugar.
Mas tomei coragem e olhei novamente para aquela multidão de homens esperando
uma moça dançar.
Coloquei um sorriso forçado em meu
semblante e estalei o chicote no chão, quando fiz isso o DJ voltou a tocar a música,
o que me encorajou a dançar. Percebi que os homens gostaram da minha
iniciativa.
Deixei o chicote no chão e comecei a
dançar no cano e a deslizar, como Lili havia me ensinado. Lembrei-me da Lili ensinando
a dança e botei o pouco que aprendi em prática naquele momento, lembrei-me de
outra frase da Lili enquanto deslizava pelo cano:
“Coloque um sorriso espontâneo em seu rosto, esqueça seus problemas e se deixe
levar pela música, explore esses seus lindos olhos azuis, mostre um olhar fatal
para aqueles homens”. Retomei o chicote em minhas mãos, assim
que larguei o cano de pole dance, estalei ele novamente no chão e comecei a
engatinhar como uma felina no cio e de frente para aqueles homens babando por
mim, mostrei um olhar fatal. Alguns começaram a jogar dinheiro no palco e
outros balançavam as notas esperando eu chegar mais próximo de suas mesas e
pegar o dinheiro, lembrei-me da dica de Lili: “Se
os homens jogarem dinheiro no palco, você pega-o delicadamente e sem pressa e
coloque sensualmente dentro do seu sapato, sempre esbanjando charme e sedução,
se os homens ficarem balançando o dinheiro em suas mesas, eles querem que você
vá buscar, aí você vai pega o dinheiro com as pontas dos dentes segurando e
depois coloca em seu sapato, daí você passa o chicote no homem delicadamente
como se fosse um carinho”.
Fiz tudo que aprendi e quando a música
acabou, inclinei a cabeça para frente agradecendo o público que aplaudia.
Saí do palco e Nina me esperava do lado
das escadas de saída.
_ Menina se você não dançasse eu iria te
enforcar! _ Olhei para o rosto de Nina que estava vermelho de nervosismo.
_ Me desculpa Nina. Na hora me bateu
medo e dúvida. _ Respondi tentando puxar o ar que me faltava de cansaço da
dança.
_ Que bom que você mudou de ideia depois
e fez o seu trabalho. _ Nina mudou o semblante de séria e começou a sorrir. _
Você estava maravilhosamente linda e sedutora.
_ Jura Nina? Jura que você gostou!? _
Falei como se fosse uma menina que tivesse ganhado um presente.
_ Linda Cynthia! Gostei muito! Espero
que você volte. _ Nina falou animada.
_ Não vou voltar Nina! Desculpe-me, mas
isso não é para mim! _ Falo séria e sem animo.
_ Cedo ou tarde Cynthia, você volta! _
Nina me fala olhando fundo em meus olhos e confiante. _ Quanto recebeu de
dinheiro?
_ Eu ainda não contei, deixe-me ver. _
Sentei-me no chão e tirei o sapato e juntei todo dinheiro e comecei a contar. _
Nina deu um total de 1.200 reais. _ Falei superanimada.
_ Que bom Cynthia! É suficiente para você
pagar suas contas? _ Nina me pergunta enquanto acendia um cigarro.
_ Sim! Consigo pagar o aluguel, as
contas e dá para abastecer um pouco a dispensa. _ Falei animada enquanto
espantava com a mão a fumaça do cigarro de Nina.
_ Que bom! Irei voltar para meu quarto.
Se algum dia quiser voltar de novo, pode voltar. Tchau minha querida!
_ Tchau Nina, e obrigada por tudo. _ Dou
um beijo em sua bochecha me despedindo dela.
Vou para o quarto de Lili. O homem
estava dormindo com ela em sua cama. Entro vagarosamente e silenciosamente para
não acordar ninguém. Deixo a fantasia de mulher-gato em seu armário e visto
minha roupa. Deixo um bilhete em cima da penteadeira com o meu telefone e
agradecendo a ela pelas dicas.
Vou embora para casa de táxi, feliz pela
grana ganhada no dia, porque sabia que poderia pagar todas as contas atrasadas,
incluindo o aluguel do apartamento.
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